Kids é um filme americano dirigido por Larry Clark (1995) que conta em seu elenco com a presença de atores como Leo Fitzpatric, Chloë Sevigny, Rosario Dawson e Jon Abrahans. O produtor é o renomado diretor de Elefante, Gus van Sant. À época em que foi lançado, Kids foi proibido em vários países de maneira que o acesso ao filme era difícil. Lembro que entrei em contato com o filme pela primeira vez quando morava em Salvador. Recordo ainda de tê-lo visto nas mãos de um amigo, mas não cheguei a assistir. Passaram-se os anos, águas despencaram e a vida trouxe-me de volta à provinciana cidade de Garanhuns onde ainda hoje moram meus pais. Foi lá que assisti Kids. A essa altura o filme havia sido liberado e era fácil encontrá-lo em locadoras como a Sétima Arte do amigo Sérgio que era bastante diversificada. Lembro que levei o filme para casa sem o receio que rondava os adolescentes e jovens de 4 ou 5 anos atrás. As sensações que me inundavam naquele momento de encaixar a fita no VHS já não eram mais de medo ou incerteza sobre a malícia ou sordidez do ato. O frio que fazia vibrar a espinha era de curiosidade. Havia medo, sim; medo de que a fita enrolasse, estivesse mofada e não fosse possível assistir ao filme na íntegra.
Kids é um retrato cinematográfico da adolescência que coincide com a descoberta da vida sexual, o desabrochar dos sentimentos, a pulsão, o latejar dos hormônios, o desejo, a vida sem grana, drogas, violência, preconceitos e inconsequências que formatam a consciência e moldam as perspectivas e rotas que se impõem porque algumas coisas são simplesmente impossíveis de mudar. Ao retratar esse cenário conturbado da adolescência nova-iorquina, Clark oferece ao espectador o desenho de uma sociedade que passa por mudanças de valores e morais que ganham corpo nas escolhas de jovens sem perspectiva de futuro. Sobra-lhes, assim, o presente. É isso que vivenciam a cada momento: o presente. Não importam as experiências passadas e isso fica claro quando no início do filme o adolescente Telle convence uma garota de 13 anos, virgem, a transar com ele mediante uma jura de amor eterno que dura apenas o tempo da relação sexual. Numa outra investida de Telle, o discurso se repete e assim o personagem vai sugando o sangue de suas vítimas sem escrúpulo que o faça proteger-se e proteger suas parceiras daquilo que Cazuza mais tarde vai protestar numa canção ao dizer que o seu prazer agora é risco de vida, ou seja, a Aids. Dado o realismo do filme, o espectador chega a se questionar sobre a localização da linha limítrofe entre realidade e ficção. Mas sem perder de vista a recriação da realidade que o diretor faz da vida cotidiana desses jovens a partir de um processo de verossimilhança, o espectador respira, para e pensa sobre o olhar particular do diretor que dá uma versão (a sua versão íntima, introspectiva) desse cenário que compreende o final do séx. XX e início do séc. XXI. Diga-se de passagem, um cenário atravessado de incertezas por todos os lados que afeta, sobretudo, aqueles que são mais vulneráveis às pressões sociais, políticas, históricas e econômicas, qual seja, os jovens. Assim fazendo, Clark, embora faça uma leitura da juventude transviada de Nova York, seu filme acaba traduzindo o estado da Juventude com J maiúsculo porque ganha dimensões mundiais e descreve o jovem em transição num mundo em mudança. É isso.
http://www.youtube.com/watch?v=V0kdx9RZ3KM
Uma definição
"O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho." (Orson Welles)
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
sábado, 14 de dezembro de 2013
Mamãe Faz Cem Anos
Mamãe faz cem anos é uma comédia dirigida pelo diretor espanhol, Carlos Saura. Do diretor espanhol, já havia assistido Táxi que é um filme cuja história trata de um grupo de taxistas que se impõe o dever de limpar a cidade de Madri de homossexuais, negros, travestis e usuários de droga. É um excelente filme que traz a densidade e a tragicidade inerentes aos eventos de violência que pontilham o roteiro.
Em Mamãe faz cem anos, Carlos Saura dirige uma comédia de altíssima qualidade e que não lança mão do bestial para expressar humor. O roteiro pendula entre a comédia e o suspense. A matrona está para fazer cem anos, de maneira que a família resolve fazer uma festa para comemorar data tão importante. Não obstante a idade avançada, a matrona administra a fazenda e a casa onde vivem com mão de ferro. Essa lucidez e intransigência da matriarca faz com que parte da família decida matá-la para se apropriar da herança. Com a chegada de Ana e seu marido, alguns fantasmas veem à tona e, aos poucos, o lado obscuro dos personagens começa a emergir. Intrigas, traições, sedução, desconfianças, medos e ambições transitam entre os personagens e constroem o ambiente onde esses personagens vão se mover.
Esse filme, influenciado pelo mestre Luis Buñuel, fecha o círculo de filmes políticos dirigidos por Carlos Saura.
Em Mamãe faz cem anos, Carlos Saura dirige uma comédia de altíssima qualidade e que não lança mão do bestial para expressar humor. O roteiro pendula entre a comédia e o suspense. A matrona está para fazer cem anos, de maneira que a família resolve fazer uma festa para comemorar data tão importante. Não obstante a idade avançada, a matrona administra a fazenda e a casa onde vivem com mão de ferro. Essa lucidez e intransigência da matriarca faz com que parte da família decida matá-la para se apropriar da herança. Com a chegada de Ana e seu marido, alguns fantasmas veem à tona e, aos poucos, o lado obscuro dos personagens começa a emergir. Intrigas, traições, sedução, desconfianças, medos e ambições transitam entre os personagens e constroem o ambiente onde esses personagens vão se mover.
Esse filme, influenciado pelo mestre Luis Buñuel, fecha o círculo de filmes políticos dirigidos por Carlos Saura.
domingo, 8 de dezembro de 2013
A Princesa de Nebraska
O filme abre focando (close-up) em pernas de mulher que, agitadas, caminham de um lado para o outro. Essas pernas são de Sasha que aguarda uma amiga no aeroporto de São Francisco (E.U.A). Após uma conversa rápida com a amiga, Sasha encontra Boshen. Ele é um cara de meia idade que troca palavras com a chinesa em mandarim e inglês. Nas primeiras cenas, perguntas saltam na nossa cabeça. Quem é Sasha? De onde veio? Para onde vai? Qual a sua relação com Boshen? À medida que os acontecimentos se desenvolvem, o diretor, Wayne Wang, vai descortinando a vida dessas personagens e as pontas, então, podem ser agora amarradas.
Sasha saiu de Pequim e foi estudar em Nebraska. Ali envolve-se com Yang, um cantor de ópera. Após assistirem uma sessão de Uma Linda Mulher, decidem transar. Sasha engravida. Envolvido num escândalo de grande repercussão porque mantinha um relacionamento com um americano, Yang é expulso da ópera. Concluído o primeiro ano de faculdade, Sasha decide ir a São Francisco a fim de abortar a criança.
Boshen tenta convencê-la a dar a luz e promete responsabilizar-se pela criança. Mas Sasha é só confusão, tédio, azedume, amargura.
Certa noite, perambula pela cidade e, após um tempo andando sem destino, senta, encosta a cabeça nas pernas e chora. Nesse momento, uma prostituta senta ao seu lado e resolve ajudá-la. Tornam-se amigas. Essa amizade influenciará fortemente a maneira como Sasha perceberá a vida e suas decisões.
Além de iniciar a chinesa na prostituição que, diga-se de passagem, não vinga, ela consegue um comprador para a criança de Sasha que está decidida a vendê-lo. A sua primeira experiência como prostituta é frustrante porque o cliente percebe que ela está grávida quando começam a transar e ela imediatamente recua.
Elas fumam. Elas bebem. Elas planejam. Elas se apaixonam. Num quarto de hotel, beijam-se e Sasha convida a prostituta para morar com ela em Nebraska. Nesse momento, instala-se o drama. Não é possível, pois a prostituta está endividada com o cafetão e não pode deixar a cidade.
A câmera treme em praticamente todas as cenas dando a impressão de nervosismo que envolve aqueles personagens. O fechamento da tela em preto quando da passagem de uma cena à outra também reforça essa ideia de tensão e nebulosidade.
Agora Sasha está diante da médica para conversar sobre o aborto. Ela passa todo o procedimento e pede que Sasha volte a pensar antes de retirar a criança. Boshen espera lá fora. Sasha sai do consultório com ar pesado, lança uma olhar raivoso sobre Boshen e segue sozinha.
Emoldurada por uma tela preta que a destaca porque veste apenas uma camisa branca de mangas compridas, Sasha parece revisitar os fatos da sua vida enquanto um linda canção a embala. A sua obsessão em filmar com o celular a vida dos outros e a própria e o diário, talvez tenham permitido a Sasha esclarecer para si mesma as dúvidas que a sufocam. Esse momento de leveza e solidão sem celular, Boshen, a prostituta, Yang, os pequenos furtos, abre para Sasha a possibilidade de reescrever sua própria trajetória. Não há fim.
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Para Sempre Mozart de Jean-Luc Godard
Para Sempre Mozart, de Jean-Luc Godard,
apresenta várias histórias que se entrecruzam e permitem uma reflexão
- acima de tudo filosófica - acerca da vida, da morte, da arte de
representar, da literatura e do cinema. Alguns trechos ditos pelos personagens:
"A morte não existe. Só eu... eu... que vou morrer."
Sobre a filosofia, Camille diz: "O que permanece em vigília em nós até no sono se deve a sua difícil amizade."
E sobre a representação: "Conhecer a possibilidade de representar nos consola da sujeição à vida."
Roteiro, fotografia, argumento e locação impecáveis!
"A morte não existe. Só eu... eu... que vou morrer."
Sobre a filosofia, Camille diz: "O que permanece em vigília em nós até no sono se deve a sua difícil amizade."
E sobre a representação: "Conhecer a possibilidade de representar nos consola da sujeição à vida."
Roteiro, fotografia, argumento e locação impecáveis!
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Benny´s Video
Benny´s Video: mais uma obra-prima de Michael Haneke. Esse faz jus ao título da Mostra A Imagem e o Incômodo. Durante o filme, a impressão que temos é que o protagonista não é Benny nem seus pais, mas a própria imagem que faz girar em torno de si todos os acontecimentos que culminam num final inesperado.
O Sétimo Continente
Vale a pena pegar um ônibus lotado no horário de pico pra ver a Mostra Haneke no Caixa Cultural? Vale! Ontem foi exibido O Sétimo Continente - primeiro filme para o cinema do diretor - e me chamou atenção as analogias que são possíveis entre o primeiro e o último: Amor. A pequena diferença está no modo de tratar o tema. Em O Sétimo Continente não há idealização, lirismo ou uma gota sequer de ternura, afeto. O que encontramos é a vida em sua crueza e sem ornamentos que pudessem mascarar o cotidiano de uma família decadente.
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Os Amantes Passageiros
O novo filme dispensa as situações inverossímeis e trabalha com a imprevisibilidade, mas sem resvalar no inverossímil. Por meio da metáfora da pane aérea, Almodóvar satiriza a atual situação econômica da Espanha em tempos de recessão. Numa classe especial, pilotos mal-resolvidos, uma sadomasoquista, um matador de aluguel, uma vidente virgem, um traficante e sua namorada sonâmbula, um trapaceiro, um ator mentiroso e três comissários gays vivem situações tensas e engraçadas que fazem do filme um painel dos tipos sociais que perambulam pela Espanha que luta para sair da crise atual. Excelente!!!
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